domingo, 24 de abril de 2011

Morreu o crítico de arte e curador Paulo Reis. Morreu um dos melhores professores que já tive


Ontem, quando cheguei a casa, fiz o que costumo fazer antes de dormir; vou sempre ver as últimas notícias. Um dos destaques do Sapo apontava para a morte de Paulo Reis, um curador e crítico de arte.

Fiquei gelada. Não existem muitos profissionais da área com este nome. Li, de imediato, a notícia. Fiquei em choque. Era o meu professor.

No primeiro ano da Faculdade, apresentaram-nos o Professor de Estética. Paulo Reis, um crítico de arte e curador muito conhecido. Achámos logo que ia ser um bocado pretensioso, já que a descrição que nos faziam dele era quase transcendente. Na primeira aula, baixámos todas as defesas; aquele homem era um encanto. Um brasileiro super bem com a vida, muito bem disposto, muito culto e, acima de tudo, muito interessado pelos alunos.
Ele era nosso professor de Estética. Não posso dizer que tenha sido a minha cadeira preferida da faculdade, porque não foi, mas aquele professor marcou-me, e não apenas por ter agora falecido. Marcou-me porque dava uma aula com 30 alunos presentes com o mesmo entusiasmo que uma que apenas tivesse 8. E aconteceu tantas vezes... O professor de Estética foi, muitas vezes, nosso professor de História de Arte também. A maior parte das vezes não estávamos nada interessados em Estética (não era o nosso forte) e o professor abria aleatoriamente uma pasta do computador e ali tínhamos 2 horas de aula sobre o Barroco, o Cubismo, Teoria da História da Arte, Dadísmo, Escola de Frankfurt, Arquitectura da Destruição... A lista é imensa. No fundo, o tema da aula era escolhido no momento e o professor tinha a capacidade de, em menos de nada, preparar uma aula e conversar connosco sobre um tema qualquer durante 120 minutos.

Entretanto, chegou ao fim o semestre e, apesar da cadeira ser anual, soubemos que íamos ficar sem aquele professor. Ele vivia em Lisboa, vinha ao Porto apenas para nos dar aquela aula à terça-feira e o trabalho na capital acumulava-se a olhos vistos. Ao mesmo tempo ainda estava a preparar a edição de dois livros e era complicado. Ficámos, como é óbvio, com muita pena, porque gostávamos muito daquele professor brasileiro, que tanto se interessava por nós. Só para se ter uma noção, ele recomendou-nos um livro de Estética, mas ao fim de pouco tempo percebemos que não o íamos encontrar em Portugal à venda. Na viagem seguinte que o professor fez ao Brasil, trouxe o livro para a turma toda. Claro que lhe pagámos o livro, mas penso que esta atitude demonstra bem o carácter dele. Lembro-me de ele contar que teve de abdicar de trazer a própria bagagem para poder trazer-nos os livros.

Como dizia, ele deixou de ser nosso professor. Mas sempre que vinha ao Porto fazia questão de ir à Faculdade ter com antigos colegas. E, por incrível que pareça, três anos depois de nos ter dado aquele semestre de aulas, ainda nos conhecia, ainda nos cumprimentava, ainda se interessava por nós. 

Sobre o trabalho dele, só posso dizer que era um dos melhores na área. Era muito trabalhador. Trabalhava em Lisboa, na Carpe Diem, colaborava numa galeria em Miguel Bombarda com novos artistas, fazia curadoria pontual para o Soares dos Reis, foi co-fundador da Dardo.. 

Tudo isto para dizer que se perde um grande homem, um grande professor.

Mais sobre ele:



3 comentários:

Anônimo disse...

:(

Nuno Garrido disse...

Obrigado por partilhares isto

Anônimo disse...

Também foi meu professor de estética na Esvola Superior de Educação do Porto. Soube mesmo agora pelo jornal e fiquei triste com a noticia. Era uma pessoa com um poder de cativar enorme, tanto pela sua cultura como pela sua singularidade! Fizeste uma homenagem bonita.

Abraço